a caderneta de notas do primeiro semestre

Eu comecei essa viagem me propondo escrever pelo menos uma vez por semana nesse blog. Mas a dinâmica da vida na estrada – trabalhando 8h por dia, praticando pilates segunda, quarta e sexta enquanto moro a cada uma ou quatro semanas em um lugar diferente, ainda era desconhecida pra mim. Entendi ainda que eu nem sempre tenho o que expressar. Preciso acumular aventuras, aprendizados e sentimentos pra criar um novo texto. E hoje eu falo um pouco de tudo isso, recapitulando algumas coisas que aprendi até o momento e como estou começando o segundo semestre pelo nordeste do Brasil. Vou usar o conhecido esquema de disciplinas e notas que a gente lembra da época de colégio. De cara então a gente repara que na matéria Meu Primeiro Blog eu tomei bomba. Nota 0.

Na matéria Ficar e Fazer Rolês Sozinho eu passei com boa nota. Fui mal nas primeiras provas mas tomei uma advertência e consegui recuperar. Hoje parece que foi há muito tempo atrás que eu ainda não sabia como fazer os exercícios dessa matéria. Foi logo ali, em Floripa, que eu ainda sentia dificuldade. Hoje saí sem rumo em Arraial DAjuda: descolei um lugar na praia, curti um sol depois de um mergulho, olhei pro mar e me veio à mente “puts, como é bom estar aqui sozinho”. Nota B.

Também mandei bem na Desacelera, gente. Mas para conseguir isso foi muito importante configurar o celular pra limitar o tempo nos aplicativos de rede social e desinstalar alguns outros além de tentar mudar a forma como me relaciono com ele. A nossa percepção de tempo está muito vinculada hoje ao instante dos acontecimentos do planeta e talvez até fora dele. Se algum país avançado na ciência resolver publicar que fez contato com uma civilização no sistema solar ou além, a gente fica sabendo na hora. Parece-me que tudo está se tornando instantâneo. Então para desacelerar e reaprender a curtir o momento e estar presente contigo mesmo ou com quem te acompanha, esquecer do celular é fundamental. As vidas on-line e off-line andam em velocidades muito diferentes, não vale a pena a tentativa de sincronizar as duas. Talvez um nome mais apropriado pra essa disciplina seria Saúde Mental I. Nota A.

Cozinhando em Casa eu não mandei bem. Passei na média, quase fiquei de recuperação. Eu meio que fiquei de dependência na verdade. Tô repetindo essa matéria agora, no segundo semestre. Sei que eu poderia ter feito melhor, mas passei por alguns apartamentos com cozinha pouco equipada. Em um deles não tinha escorredor de macarrão, a comida mais fácil de se preparar, vejam só! Hoje estou num apartamento com ilha na cozinha, bem no Centro de Arraial. É a casa de um cheff, com excelentes panelas, agora vai. Nota D menos.

Em Primeiros Socorros eu tive um teste mega difícil. Adoeci assim que cheguei em Torres, no RS. Cheguei no início no inverno e debaixo de uma semana de muita chuva prevista. Baita frio! Sem conhecer ninguém, eu estava de ressaca, tive uma intoxicação alimentar e ainda testei positivo para COVID. Uma parte de mim quis agachar no canto e pedir colo da mãe e do pai mas eu não deixei, mandei levantar de lá e ir se cuidar. Não tinha jeito, né? Acho que com essa coragem de enfrentar tal teste acabei ganhando de presente um final de semana ensolarado, sem uma nuvem no céu. Conheci a cidade desse jeito, sol a pino e céu azul. Qual o superlativo de azul? Andei de bike, caminhei muito – tudo sem sentir cheiro nem sabor. Com aquele nariz de menino pequeno, escorrendo demais, fechei Torres com chave de ouro: lua cheia bem acima do mar. Nota A.

Também passei com nota máxima a disciplina de Aventuras I. Claro que a tutoria sempre ajuda e nesse caso não foi diferente, tive uma excelente tutora pra essa matéria em Praia Grande. Mas esse assunto merece um texto exclusivo que já está no forno. Quem me acompanha no Instagram viu muita coisa que eu não imaginava encontrar no Brasil. Nota A.

Tirei nota C em Economia Doméstica e Planejamento porque não me atentei a alguns detalhes nos apartamentos pelos quais passei. Em Penha eu enfrentei duas noites numa hospedagem bem improvisada e com um mofo terrível no quarto e no colchão por causa do preço atrativo e dos reviews totalmente equivocados no AirBnb. Algumas mudanças quase se tornaram problemão por eu não reparar nas datas ou horas de checkin/checkout, como na Armação em Floripa. Por causa da pressa, reservei uma estadia que não me atenderia bem para um mês no Campeche, também em Floripa – demorei na comunicação com o host para cancelar a reserva e acabei dispondo de uma grana alta (felizmente pude fazer o agrado de alguém com a reserva que ficou presa). A nota não ficou pior pois garanti o conforto, o bom gosto e lugares bem localizados.

Fecho então a caderneta de notas do primeiro semestre da vida de nômade digital bem satisfeito. Conheci pessoas maravilhosas, presenciei visuais exuberantes, conheci lugares que há muito tempo eu queria estar e o melhor de tudo: um homem transformado, muito mais conhecedor de si mesmo.

Passeio de helicóptero nas Cataratas do Iguaçú

Publicado por Sergio Rossini

Brasileiro de Minas Gerais, programador, nômade digital e em constante construção.

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