a mala manca

Esse foi o primeiro texto que escrevi como exercício do curso de Narrativas Afetivas de Viagem, do Daniel Nunes. O curso faz parte de uma das metas que tenho nessa jornada de nômade digital: adquirir novos conhecimentos.

Escolher um objeto ou foto de viagem que rende quatro mil toques de texto ainda é uma tarefa difícil para mim. Porém a mala com capacidade de 23kg que me acompanha nessa jornada de nômade digital pelo Brasil foi a primeira coisa que veio à mente. É que ela tem quase 10 anos e está manca há 3 pelo menos. Apesar de usá-la ainda hoje em sua total capacidade, ela continua dando conta do recado. Foi comprada junto com uma outra, da mesma cor e tamanho, e ambas já rodaram um bocado comigo. Algumas aventuras que ela já me acompanhou são realmente dignas de nota.

Em BH, com a personagem principal dessa história, momentos antes de pegar a estrada

Na viagem inaugural, ela carregou minhas roupas novas de inverno, compradas exclusivamente para esse momento. A minha primeira jaqueta impermeável, waterproof, como aprendi na época, foi dentro. Em Reykjavik, na Islândia, ela escorregou pela calçada congelada enquanto mantinha seguros o DVD Heima, do Sigur Rós, o CD de luxo Medúlla, da Björk e um novo lindo suéter azul de lã islandesa que raramente uso no Brasil mas que, quando uso, faz sucesso.

Ela dá mais conta do frio do que eu, me atrevo a dizer. Uma vez em Toronto, ela rodou comigo por uma temperatura de -6C e a sensação térmica de -15C. Foi quando cheguei para ficar um mês em Scarborough, leste da região central, uma parte denominada brown neighborhood, algo como bairro marrom, para designar o tom de cor da pele dos imigrantes que ali vivem. Ela ainda passou por cima de alguns flocos de neve. Danada!

Amsterdam tem aquelas construções de fachadas super estreitas, lindas, mas que escondem escadas extremamente íngremes, difíceis de escalar. Quero dizer, subir. Nesse meu caso, quase 90 graus. Subir com essa mala, totalmente cheia, por tal escada, foi desafiador: em tempo de todo mundo rolar abaixo. A solução para descer? As correntes que prendiam as bikes do hostel: pendurada, ela desceu pouco a pouco pelas minhas mãos enquanto outro ia direcionando por baixo. O risco de tombo foi bem menor. O cara da recepção era só risada e comentou: vou sugerir essa ideia para mais hóspedes.

E em altas temperaturas? Eu ainda não sabia como ela se comportaria. Fiz o pior teste e, mais uma vez, ela foi mais resistente do que eu. Enfrentou comigo os 43C pelas ruas de Berlim, no verão de 2019, sem se deixar abater pelas calçadas escaldantes. Até então rodinhas intactas. Num show de resistência, lá estava ela, carregando a bagagem de dois hedonistas de BH, ávidos por badalação e vida noturna. Calçados, regatas, as melhores roupas e acessórios para compor o visual da noite estavam devidamente protegidos enquanto seus donos quase morriam de calor e desidratação. Foi nessa época que ela sofreu sua primeira fratura, uma das rodinhas dianteiras precisou ser levada para manutenção quando retornou ao Brasil.

Hoje, meio manca, ela carrega todo o meu guarda roupa de nômade digital. Segue devidamente identificada como FRÁGIL com um adesivo vermelho e bem grande fixada em seus dois lados. Ela foi capaz de trazer para o litoral sul da Bahia uma cachaça de Jabuticaba fabricada artesanalmente por uma família da zona rural de Praia Grande, em Santa Catarina. Ou seja, segue resistente, boa companheira de aventuras, essa mala manca!

Publicado por Sergio Rossini

Brasileiro de Minas Gerais, programador, nômade digital e em constante construção.

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