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  • coração destemido

    É um coração temeroso,
    O que constrói um muro.

    E um coração destemido,
    O que é capaz de viver sem ele.

    E encontrar alguém
    Com um coração destemido

    Desarma-nos,
    As armas são depostas
    Na presença de um coração destemido.
    Um coração sem muro!

    E é uma decisão muito solitária
    Ter um coração destemido.

    É uma verdadeira liberdade.

    Do curta: The Invisible Frame com Tilda Swinton

  • a lua e o mar

    Eu acho difícil escrever sobre a experiência de quando a lua ou o mar se conectam com a gente. Principalmente quando eles chegam a representar nossas emoções e sentimentos. Mas eu vou tentar. Já peço desculpas pela minha pequena ambição narrativa.

    A primeira vez que reparei em tal conexão foi na lua cheia de maio deste ano em Florianópolis. Eu me sentia aflito, incerto mas sem motivos. Era meu segundo mês na ilha, tudo estava seguindo bem na vida. Estava inquieto e não sabia o porquê. Era domingo e resolvi caminhar pela Barra da Lagoa e rever a Prainha. E, pela tarde, sentado numa pedra beira-mar, passei a reparar nas ondas. O mar seguia agitado, violento. Insistia em não entregar a rede aos pescadores que a puxavam na direção da praia. Era início da época de pesca da tainha, quando o surf passa a ser proibido nas praias da ilha. No momento em que uma onda estourou logo abaixo de mim e vez aquele barulhão, me vi representado. E tudo pareceu fazer sentido. Como num estalo, não importava mais o quanto meu estado emocional estava atrapalhado: assim como o mar fica agitado e depois se acalma, eu entendi que o mesmo acontecia comigo. E então parei de me importar, deixei fluir. Permiti que esse sentimento, que não sei de onde veio, passasse pelo meu corpo. Hoje, quando eles retornam sem motivos, imagino um mar agitado dentro de mim.

    O contrário também aconteceu. Quero dizer, quando o mar se mostrou tão calmo quanto eu estava. Foi o dia que ele me inspirou a escrever esse texto. Num domingo de clima incerto e acompanhado de muita serenidade interna, logo depois de um aprendizado importante no dia anterior devido a um susto que passei, resolvi ir à praia pela manhã. Mucugê me surpreendeu, se mostrando com uma maré baixa e tranquila, formando enormes piscinas naturais e permitindo caminhos longos até os recifes. É que até então eu só conhecia o mar agitado da tarde em Arraial D’. Fui surpreendido em dobro, pelas tranquilidades: minha e do mar. Mais uma vez ele dialogava com minhas emoções e sentimentos.

    Já a lua interage à noite. E assim, numa delas, depois de um divertido e longo dia com os amigos em Caraíva, meu corpo pediu descanso. Numa atitude irônica de quem normalmente é o inimigo do fim, me despedi dos amigos e segui a pé na direção da pousada. Seriam 30 minutos de caminhada quase que totalmente sem iluminação. O clima era de chuva mas parti num momento que ela tinha dado trégua. Foi uma pequena trégua. No meio do caminho ela apareceu, mas mantive meu destino, dessa vez, acompanhado. A lua cheia, mesmo tampada pelas nuvens da chuva, achou um espaço e se mostrou pra mim. Aí a gente era meio que uma gangue pelas ruas de Xandó, uma aldeia na região dos pataxós: eu, a chuva, a lua e um caminho iluminado até meu destino. Ao chegar na pousada, como um bom filho, segui até a praia e agradeci a lua por me acompanhar. E então ela se escondeu.

    E assim a vida vai mostrando uma maneira nova de a gente se entender como ser humano. De, na prática, como se fosse magia, entender que somos todos um e que tudo se conecta. A natureza cura. Ela se comunica. Mas a gente precisa se escutar antes.

  • a mala manca

    Esse foi o primeiro texto que escrevi como exercício do curso de Narrativas Afetivas de Viagem, do Daniel Nunes. O curso faz parte de uma das metas que tenho nessa jornada de nômade digital: adquirir novos conhecimentos.

    Escolher um objeto ou foto de viagem que rende quatro mil toques de texto ainda é uma tarefa difícil para mim. Porém a mala com capacidade de 23kg que me acompanha nessa jornada de nômade digital pelo Brasil foi a primeira coisa que veio à mente. É que ela tem quase 10 anos e está manca há 3 pelo menos. Apesar de usá-la ainda hoje em sua total capacidade, ela continua dando conta do recado. Foi comprada junto com uma outra, da mesma cor e tamanho, e ambas já rodaram um bocado comigo. Algumas aventuras que ela já me acompanhou são realmente dignas de nota.

    Em BH, com a personagem principal dessa história, momentos antes de pegar a estrada

    Na viagem inaugural, ela carregou minhas roupas novas de inverno, compradas exclusivamente para esse momento. A minha primeira jaqueta impermeável, waterproof, como aprendi na época, foi dentro. Em Reykjavik, na Islândia, ela escorregou pela calçada congelada enquanto mantinha seguros o DVD Heima, do Sigur Rós, o CD de luxo Medúlla, da Björk e um novo lindo suéter azul de lã islandesa que raramente uso no Brasil mas que, quando uso, faz sucesso.

    Ela dá mais conta do frio do que eu, me atrevo a dizer. Uma vez em Toronto, ela rodou comigo por uma temperatura de -6C e a sensação térmica de -15C. Foi quando cheguei para ficar um mês em Scarborough, leste da região central, uma parte denominada brown neighborhood, algo como bairro marrom, para designar o tom de cor da pele dos imigrantes que ali vivem. Ela ainda passou por cima de alguns flocos de neve. Danada!

    Amsterdam tem aquelas construções de fachadas super estreitas, lindas, mas que escondem escadas extremamente íngremes, difíceis de escalar. Quero dizer, subir. Nesse meu caso, quase 90 graus. Subir com essa mala, totalmente cheia, por tal escada, foi desafiador: em tempo de todo mundo rolar abaixo. A solução para descer? As correntes que prendiam as bikes do hostel: pendurada, ela desceu pouco a pouco pelas minhas mãos enquanto outro ia direcionando por baixo. O risco de tombo foi bem menor. O cara da recepção era só risada e comentou: vou sugerir essa ideia para mais hóspedes.

    E em altas temperaturas? Eu ainda não sabia como ela se comportaria. Fiz o pior teste e, mais uma vez, ela foi mais resistente do que eu. Enfrentou comigo os 43C pelas ruas de Berlim, no verão de 2019, sem se deixar abater pelas calçadas escaldantes. Até então rodinhas intactas. Num show de resistência, lá estava ela, carregando a bagagem de dois hedonistas de BH, ávidos por badalação e vida noturna. Calçados, regatas, as melhores roupas e acessórios para compor o visual da noite estavam devidamente protegidos enquanto seus donos quase morriam de calor e desidratação. Foi nessa época que ela sofreu sua primeira fratura, uma das rodinhas dianteiras precisou ser levada para manutenção quando retornou ao Brasil.

    Hoje, meio manca, ela carrega todo o meu guarda roupa de nômade digital. Segue devidamente identificada como FRÁGIL com um adesivo vermelho e bem grande fixada em seus dois lados. Ela foi capaz de trazer para o litoral sul da Bahia uma cachaça de Jabuticaba fabricada artesanalmente por uma família da zona rural de Praia Grande, em Santa Catarina. Ou seja, segue resistente, boa companheira de aventuras, essa mala manca!

  • a caderneta de notas do primeiro semestre

    Eu comecei essa viagem me propondo escrever pelo menos uma vez por semana nesse blog. Mas a dinâmica da vida na estrada – trabalhando 8h por dia, praticando pilates segunda, quarta e sexta enquanto moro a cada uma ou quatro semanas em um lugar diferente, ainda era desconhecida pra mim. Entendi ainda que eu nem sempre tenho o que expressar. Preciso acumular aventuras, aprendizados e sentimentos pra criar um novo texto. E hoje eu falo um pouco de tudo isso, recapitulando algumas coisas que aprendi até o momento e como estou começando o segundo semestre pelo nordeste do Brasil. Vou usar o conhecido esquema de disciplinas e notas que a gente lembra da época de colégio. De cara então a gente repara que na matéria Meu Primeiro Blog eu tomei bomba. Nota 0.

    Na matéria Ficar e Fazer Rolês Sozinho eu passei com boa nota. Fui mal nas primeiras provas mas tomei uma advertência e consegui recuperar. Hoje parece que foi há muito tempo atrás que eu ainda não sabia como fazer os exercícios dessa matéria. Foi logo ali, em Floripa, que eu ainda sentia dificuldade. Hoje saí sem rumo em Arraial DAjuda: descolei um lugar na praia, curti um sol depois de um mergulho, olhei pro mar e me veio à mente “puts, como é bom estar aqui sozinho”. Nota B.

    Também mandei bem na Desacelera, gente. Mas para conseguir isso foi muito importante configurar o celular pra limitar o tempo nos aplicativos de rede social e desinstalar alguns outros além de tentar mudar a forma como me relaciono com ele. A nossa percepção de tempo está muito vinculada hoje ao instante dos acontecimentos do planeta e talvez até fora dele. Se algum país avançado na ciência resolver publicar que fez contato com uma civilização no sistema solar ou além, a gente fica sabendo na hora. Parece-me que tudo está se tornando instantâneo. Então para desacelerar e reaprender a curtir o momento e estar presente contigo mesmo ou com quem te acompanha, esquecer do celular é fundamental. As vidas on-line e off-line andam em velocidades muito diferentes, não vale a pena a tentativa de sincronizar as duas. Talvez um nome mais apropriado pra essa disciplina seria Saúde Mental I. Nota A.

    Cozinhando em Casa eu não mandei bem. Passei na média, quase fiquei de recuperação. Eu meio que fiquei de dependência na verdade. Tô repetindo essa matéria agora, no segundo semestre. Sei que eu poderia ter feito melhor, mas passei por alguns apartamentos com cozinha pouco equipada. Em um deles não tinha escorredor de macarrão, a comida mais fácil de se preparar, vejam só! Hoje estou num apartamento com ilha na cozinha, bem no Centro de Arraial. É a casa de um cheff, com excelentes panelas, agora vai. Nota D menos.

    Em Primeiros Socorros eu tive um teste mega difícil. Adoeci assim que cheguei em Torres, no RS. Cheguei no início no inverno e debaixo de uma semana de muita chuva prevista. Baita frio! Sem conhecer ninguém, eu estava de ressaca, tive uma intoxicação alimentar e ainda testei positivo para COVID. Uma parte de mim quis agachar no canto e pedir colo da mãe e do pai mas eu não deixei, mandei levantar de lá e ir se cuidar. Não tinha jeito, né? Acho que com essa coragem de enfrentar tal teste acabei ganhando de presente um final de semana ensolarado, sem uma nuvem no céu. Conheci a cidade desse jeito, sol a pino e céu azul. Qual o superlativo de azul? Andei de bike, caminhei muito – tudo sem sentir cheiro nem sabor. Com aquele nariz de menino pequeno, escorrendo demais, fechei Torres com chave de ouro: lua cheia bem acima do mar. Nota A.

    Também passei com nota máxima a disciplina de Aventuras I. Claro que a tutoria sempre ajuda e nesse caso não foi diferente, tive uma excelente tutora pra essa matéria em Praia Grande. Mas esse assunto merece um texto exclusivo que já está no forno. Quem me acompanha no Instagram viu muita coisa que eu não imaginava encontrar no Brasil. Nota A.

    Tirei nota C em Economia Doméstica e Planejamento porque não me atentei a alguns detalhes nos apartamentos pelos quais passei. Em Penha eu enfrentei duas noites numa hospedagem bem improvisada e com um mofo terrível no quarto e no colchão por causa do preço atrativo e dos reviews totalmente equivocados no AirBnb. Algumas mudanças quase se tornaram problemão por eu não reparar nas datas ou horas de checkin/checkout, como na Armação em Floripa. Por causa da pressa, reservei uma estadia que não me atenderia bem para um mês no Campeche, também em Floripa – demorei na comunicação com o host para cancelar a reserva e acabei dispondo de uma grana alta (felizmente pude fazer o agrado de alguém com a reserva que ficou presa). A nota não ficou pior pois garanti o conforto, o bom gosto e lugares bem localizados.

    Fecho então a caderneta de notas do primeiro semestre da vida de nômade digital bem satisfeito. Conheci pessoas maravilhosas, presenciei visuais exuberantes, conheci lugares que há muito tempo eu queria estar e o melhor de tudo: um homem transformado, muito mais conhecedor de si mesmo.

    Passeio de helicóptero nas Cataratas do Iguaçú
  • o manezinho da ilha

    Ei gente, como vão? Estive longe desse blog por um tempo, dois meses, tentando ser preciso. É que passei os meses de abril e maio em Florianópolis, a ilha da magia. Hoje foi meu último dia de manezinho da ilha, como eles chamam os homens de lá. Mais um período nessa jornada que só tenho a agradecer, vem comigo que eu explico o porquê.

    Entardecer na Lagoa da Conceição

    Floripa me encantou no primeiro momento. Comecei pelo sul da ilha, num lugar chamado Armação. Cheguei no domingo à tarde e fui recebido por um belo sol. Minha reserva ali estava a 50 metros da praia. Apenas larguei as coisas pelo apartamento, vesti a sunga e corri para a praia. E que praia! Bastante frequentada por surfistas, de mar mais agitado, areia grossa, a praia da Armação reserva um belo nascer do sol. Além disso, tem uma faixa bem grande de pedras que faz a divisa com a Praia do Matadeiro, de onde é possível aproveitar momentos à noite para ver as estrelas. E é óbvio que eu fiz isso. Eu morei a alguns metros da Lagoa do Peri, do lado de onde fica o Projeto Tamar. Que delícia de passeio – meio do mato total. Ainda no sul da ilha, fiz a trilha da Lagoinha do Leste e aproveitei um dia na Praia do Pântano do Sul onde conheci a senhora Zenaide, proprietária do Bar e Restaurante Pedacinho do Céu e personagem importante na história dessa parte da ilha.

    Quando maio chegou, eu me mudei para Barra da Lagoa, no centro da ilha. Saí de Armação no domingo cedo, debaixo de chuva. Para minha alegria, enquanto percorria os 18km do trajeto, a chuva foi estiando em menos de uma hora depois de chegar na nova morada, o sol deu as caras novamente. Mais um domingo iniciado cheio de felicidade nesse cantinho da ilha. Achei o mar mais calmo nessa praia apesar de ainda ver alguns surfistas, bem menos. A Barra da Lagoa é mais badalada que a Armação porém mantém o mesmo ambiente familiar e simples. Depois de aproveitar o sol resolvi dar uma volta pela orla e fui até os faróis da entrada do canal da Barra quando vi uma ponte de pedestres e um fluxo constante de gente indo e vindo. Resolvi seguir o fluxo e ver onde dava, quando descobri a Prainha da Barra e a trilha para as piscinas naturais. Que visual, minha gente! Nesse momento eu já estava enfeitiçado, enxergava bruxas voando ao meu redor e duendes prendendo minhas mãos apoiadas na pedra enquanto contemplava o mar e o pôr-do-sol. A possibilidade de fazer passeios similares nessa região da ilha me encantou demais. Teve a trilha do Gravatá, a própria orla da Barra que dá em Moçambique, o Projeto Tamar, o passeio de barco no canal.

    Quando o ciclone chegou do Uruguay no final de maio, vivi noites bem frias com o vento uivando e fazendo a estrutura de madeira do apartamento vibrar, cenário típico de filmes de terror. Eu me diverti e valeu cada momento.

    Esse tempo na ilha da magia me agraciou com pessoas maravilhosas, com cenários de contemplação de tirar o fôlego e uma aproximação maior comigo mesmo, minha essência. Foram vários momentos em que a natureza representava exatamente o que se passava dentro de mim. Essa conexão é inexplicável.

    Prainha da Barra da Lagoa

    E parece que Floripa tem infinitas coisas para fazer! Fiz esse comentário com uma amiga mineira que vive aqui. Ela concordou. São inúmeras trilhas, muitas praias, tem cachoeira, lagos, mirantes, sandboard, surf, passeio de barco a ilhas menores, pedalinho, quadras de vôlei de areia, pesca. Tudo isso além do que qualquer cidade oferece, como bares, restaurantes, baladas, festas, museus e por aí vai. Até um rolê de ônibus vai ser prazeroso devido à todo o visual natural que a ilha tem.

    Realmente tive dificuldade de sentar e escrever alguma coisa pois cada momento nesse paraíso me pareceu valioso. Na estrada agora para Porto Alegre senti que precisava compartilhar o mínimo de tanta coisa legal que vivi, peguei o note e cá estamos. Floripa, eu recomendo DEMAIS! Voltarei em breve, tem muita coisa ainda a explorar.

    Ilha de Santa Cataria, Florianópolis, infinitas coisas para fazer

    Sigo em frente vivendo um novo sentimento, uma mistura de pesar em deixar pra trás tanta coisa legal e a excitação pelo novo e desconhecido que vem pela frente.