a lua e o mar

Eu acho difícil escrever sobre a experiência de quando a lua ou o mar se conectam com a gente. Principalmente quando eles chegam a representar nossas emoções e sentimentos. Mas eu vou tentar. Já peço desculpas pela minha pequena ambição narrativa.

A primeira vez que reparei em tal conexão foi na lua cheia de maio deste ano em Florianópolis. Eu me sentia aflito, incerto mas sem motivos. Era meu segundo mês na ilha, tudo estava seguindo bem na vida. Estava inquieto e não sabia o porquê. Era domingo e resolvi caminhar pela Barra da Lagoa e rever a Prainha. E, pela tarde, sentado numa pedra beira-mar, passei a reparar nas ondas. O mar seguia agitado, violento. Insistia em não entregar a rede aos pescadores que a puxavam na direção da praia. Era início da época de pesca da tainha, quando o surf passa a ser proibido nas praias da ilha. No momento em que uma onda estourou logo abaixo de mim e vez aquele barulhão, me vi representado. E tudo pareceu fazer sentido. Como num estalo, não importava mais o quanto meu estado emocional estava atrapalhado: assim como o mar fica agitado e depois se acalma, eu entendi que o mesmo acontecia comigo. E então parei de me importar, deixei fluir. Permiti que esse sentimento, que não sei de onde veio, passasse pelo meu corpo. Hoje, quando eles retornam sem motivos, imagino um mar agitado dentro de mim.

O contrário também aconteceu. Quero dizer, quando o mar se mostrou tão calmo quanto eu estava. Foi o dia que ele me inspirou a escrever esse texto. Num domingo de clima incerto e acompanhado de muita serenidade interna, logo depois de um aprendizado importante no dia anterior devido a um susto que passei, resolvi ir à praia pela manhã. Mucugê me surpreendeu, se mostrando com uma maré baixa e tranquila, formando enormes piscinas naturais e permitindo caminhos longos até os recifes. É que até então eu só conhecia o mar agitado da tarde em Arraial D’. Fui surpreendido em dobro, pelas tranquilidades: minha e do mar. Mais uma vez ele dialogava com minhas emoções e sentimentos.

Já a lua interage à noite. E assim, numa delas, depois de um divertido e longo dia com os amigos em Caraíva, meu corpo pediu descanso. Numa atitude irônica de quem normalmente é o inimigo do fim, me despedi dos amigos e segui a pé na direção da pousada. Seriam 30 minutos de caminhada quase que totalmente sem iluminação. O clima era de chuva mas parti num momento que ela tinha dado trégua. Foi uma pequena trégua. No meio do caminho ela apareceu, mas mantive meu destino, dessa vez, acompanhado. A lua cheia, mesmo tampada pelas nuvens da chuva, achou um espaço e se mostrou pra mim. Aí a gente era meio que uma gangue pelas ruas de Xandó, uma aldeia na região dos pataxós: eu, a chuva, a lua e um caminho iluminado até meu destino. Ao chegar na pousada, como um bom filho, segui até a praia e agradeci a lua por me acompanhar. E então ela se escondeu.

E assim a vida vai mostrando uma maneira nova de a gente se entender como ser humano. De, na prática, como se fosse magia, entender que somos todos um e que tudo se conecta. A natureza cura. Ela se comunica. Mas a gente precisa se escutar antes.

Publicado por Sergio Rossini

Brasileiro de Minas Gerais, programador, nômade digital e em constante construção.

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